A casa
Quarenta anos fechada, com uma árvore crescendo lá dentro
Na rua de cima tinha seis casas, e só uma tinha alguém dentro.
Dava para perceber na hora quais estavam vazias. Quatro tinham as janelas fechadas com blocos de concreto novos, e os espinheiros continuavam subindo por cima. Em cada porta tinham parafusado uma plaquinha brilhante com uma folha desenhada, o nome do povoado e duas palavras em inglês. Aquelas placas eram a única coisa nova da rua inteira.
A que tinha alguém era a da esquina. Lenha empilhada, um capacho e um carro pequeno na frente, com o para-brisa novo. Na janela de cima tinha uma mulher olhando. O Axel levantou a mão para ela.
A mulher fechou a cortina.
A da Hortensia era a última e acabou sendo bem maior do que o Axel esperava. Tinha dois andares, paredes de pedra escura e o portão do estábulo arrebentado na parte de baixo. Faltava metade das tábuas na varanda de madeira e saía uma samambaia de um canto. No beiral também faltavam alguns dentes. À direita, meio escondido pela hera, aparecia um volume redondo de pedra com uma boca preta: o forno, exatamente como dizia o papel.
O do carro tinha subido atrás deles sem ninguém dizer nada. Estava no meio da rua com as mãos na cintura, lendo o papel da porta com a cabeça inclinada.
— Porra. Isso é de vocês?
— Não.
— Melhor ainda. — Deu uma batidinha no plástico. — Então deixa derrubarem, gente. Eles que paguem e vida que segue.
— Quem paga é a Hortensia — disse a Eva.
— Quem?
— A senhora da pousada. A que ria das suas histórias.

— Ah. A senhora. — Riu. — Que fofa, a senhora.
A Eva continuava encostada no muro, de mochila nas costas.
— E você, o que tá fazendo aqui?
— Tava passando.
— Aqui não passa ninguém.
— Então eu passei errado. — Sorriu com a cara inteira.
O Axel passou dez minutos brigando com a fechadura até perceber que estava cheia de terra e de um ninho velho. Tirou com um graveto e deixou em cima do muro.
A chave entrou na quarta tentativa e girou com um barulho de osso.
Lá dentro cheirava a terra molhada e a uma coisa adocicada que o Axel não soube reconhecer. O estábulo era enorme, com chão de lajes, cochos de pedra junto à parede e um carrinho de mão enferrujado abandonado ao lado de uma montanha de samambaias secas. O que mais estranhou foi a luz que vinha de cima.
Subiram por uma escada de pedra grudada na parede, sem corrimão, contando os degraus porque dois estavam quebrados.
A parte de morar ficava em cima. Na cozinha havia uma lareira enorme, preta de fumaça, com uma abertura do tamanho de um armário. Restavam uma mesa bamba e duas cadeiras, uma caída no chão. Um corredor dava para os dois quartos.
No cômodo dos fundos encontraram um monte de ardósia caída e, crescendo entre os pedaços, um sabugueiro de três metros que saía por um buraco no telhado. Não era um galhinho que tinha passado por uma rachadura. Era uma senhora árvore, instalada dentro da casa.

— Caralho — disse a Eva.
A luz entrava pelo buraco e batia em cheio nas folhas, que se mexiam com a corrente de ar. O Axel ficou encantado por um instante, até pensar na água que entraria ali assim que chovesse. Se não fizessem nada, no dia trinta de setembro levariam abaixo a casa, a árvore e tudo o que vivesse lá dentro.
Saiu na varanda tateando onde ainda havia tábuas e conseguiu um tracinho de sinal ao se colar no corrimão. No resto da casa o celular servia de lanterna e pouco mais.
Ligou para a Hortensia. Ela atendeu no segundo toque.
— Vocês tão aí?
— A gente tá lá dentro.
Deu para ouvir a respiração dela do outro lado.
— E aí?
— Sem enfeitar, né?
— Sem enfeitar.
— Tá de pé, mas por pouco. Um lado da varanda caiu, tem uma janela sem vidro e o beiral da rua tá podre. E tem uma árvore saindo por um buraco na parte de trás do telhado. — Bateu na parede com os nós dos dedos. — As paredes tão perfeitas, Hortensia. Aqui tem pelo menos um metro de pedra!

— E o forno?
— O forno tá aqui.
Ela demorou para responder.
— Inteiro?
— Coberto de hera até não poder mais, mas tá inteiro, sim.
Do outro lado do telefone, a respiração da Hortensia falhou.
— Bom — ela disse por fim, com a voz de sempre. — Então agora eu sei. Obrigada, filho.
O Axel olhou para baixo, para a rua, para as quatro plaquinhas.
— Hortensia. E se a gente arrumar?
Ficou um silêncio tão comprido que ele olhou a tela para ver se tinha caído.
— Eu não ponho um tostão. Nem subo.
— Eu não te pedi nada.

— Então, se deu na telha de vocês, façam.
— Quer que eu mande uma foto?
— Não.
E desligou.
A Eva estava na porta da varanda, com o ombro no batente e os braços cruzados.
— A gente arruma?
O Axel guardou o celular.
— Eu arrumo. Você arruma. Alguém arruma. — Coçou a nuca. — Tanto faz quem.
— Ahã.
E entrou com cara de quem tinha pegado ele no flagra.
Passaram duas horas tirando samambaias secas, penas e cocô de marta para abrir uma passagem entre a escada e os quartos. Axel achou um balde velho e, na terceira viagem, a alça ficou na mão dele. Recolheu tudo do chão de novo enquanto Eva arrastava para fora um saco mais pesado do que parecia.
— A floresta inteira veio cagar aqui, cara.
No meio daquela sujeira, encontraram uma lata de biscoitos cheia de botões, um almanaque inchado de umidade e um sapato de criança sem par. As aranhas iam se mudando para os cantos onde eles ainda não tinham mexido. Não havia luz nem água: a mangueira da nascente estava partida em três lugares e cheia de marcas de dentes. Do lado de fora, os espinheiros quase não deixavam chegar à parede. Na encosta apareciam latas, uma armação de cama e meia banheira.

O Axel desistiu de contar tudo o que precisava de conserto.
Junto à lareira encontraram quatro coisinhas empilhadas com muito cuidado: um botão grande, um prendedor de roupa, um pedaço de telha e uma moeda grossa daquelas antigas. Formavam uma torrezinha do tamanho de um punho, organizada do maior para o menor.
O Axel se agachou.
— Eva. Tá vendo isso?
A Eva se agachou e ficou olhando.
— Uma marta. Elas guardam coisas.
— Da maior para a menor?
— As martas fazem o que dá na telha delas.

E foi olhar outra coisa.
Ao anoitecer, quando já guardavam as coisas para descer e dormir no estábulo, o Axel viu um bichinho sentado na beirada da lareira, com as pernas penduradas para dentro. Era menor que o Gorgorito e usava um colete feito de trapo, abotoado até em cima. Estava penteadíssimo, com as costas retas e uma seriedade que impunha bastante respeito para aquele tamanhinho.
— Opa — disse o Axel.
O bicho olhou para ele de cima a baixo, bem devagar, como quem confere uma nota fiscal.
— Vocês vão ficar?
E o Axel respondeu a verdade.
— Não sei.
O bicho fez que sim uma vez.
— Depois vocês me dizem.
— Escuta. E você como…?
Mas ele já tinha se enfiado chaminé acima. De lá de dentro, com eco de pedra, acrescentou:
— E aquela ardósia da porta vocês deixaram onde não é o lugar dela.

— E a moeda que está no balde não é para jogar fora.
Axel baixou a luz para o balde onde tinha juntado a sujeira. No meio da terra estava a moeda grossa da torrezinha. Ele a tinha recolhido com a pá ao limpar perto da lareira.
— Isso não vale mais nada, cara.
— Não é sua.
Axel tirou a moeda, limpou na calça e a pôs junto ao pedaço de telha. Olhou a abertura preta da lareira, mas ninguém mais saiu de lá.
Antes de descer, o Axel saiu com a lanterna do celular e afastou a hera do volume de pedra. Uma abóbada com a boca preta de meio metro e uma laje na frente, cheia de musgo.
Tirou o papel da farinha e leu com a lanterna.
A última da rua de cima, a que tem o forno grudado na parede.
— Eva.
— Quê?
— Que é um forno de verdade, menina. Que ele tá aqui.
A Eva apareceu no degrau.

— Então a gente já sabe o que vai fazer em março.
— Por que em março?
— Porque antes tem que chegar em setembro.
E entrou.
O do carro ficou na porta do estábulo olhando as samambaias e a vela enfiada numa garrafa. Tirou a carteira.
— Que lá embaixo tem um hotel com onze quartos, e tá lotado, que isso aqui pelo visto virou moda. Mas sobraram dois. — Já estava com as notas na mão. — Eu pago para vocês. Duas noites. Ou três. Ou quantas vocês quiserem. Que isso aqui é um muquifo, gente.
Lá de dentro, sem levantar, a Eva disse que não.
— Não é nada, sério.
— Eu sei.
Ele guardou a carteira sem deixar transparecer nada. Disse que às nove subia com café e desceu assobiando.
Na manhã seguinte o Axel saiu para mijar na horta e ficou um tempo olhando a casa de fora, com a luz das oito na pedra e no plástico da porta. Depois chegou perto, pegou do chão o pedaço grande de ardósia, o da ponta lascada, e encostou de pé contra a parede, separado. Para não atrapalhar.
Depois de olhar por um instante, pegou outro pedaço e começou uma segunda pilha ao lado.