Dois cordões

Depois de quatro dias não tinham mais uma nota no bolso e, embora o Axel tivesse a conta e o cartão no celular, não havia jeito de encontrar um caixa eletrônico que lesse o aparelho. Tinham cruzado três povoados sem banco, Umbría, La Hondonada e Sietecastaños, e o caixa do quarto deu a mesma atenção que o de Vega del Fresno. As lojas também não tinham maquininha. Para completar, acabou o gás.

Estavam esquentando água numa lata de conserva que tinham lavado e guardado. O fogareiro novo fez pfff, soltou um cheiro esquisito e apagou. O Axel sacudiu o cartuchinho e tentou de novo. Nada. Tinha durado bem menos do que ele esperava.

— E agora? — perguntou o Axel.

— Agora fogo.

— Com esse mato não pega nem com gasolina.

A Eva olhou o mato, olhou o céu e chegou na mesma conclusão.

— Então amanhã eu canto.

— Aqui não tem ninguém para quem cantar.

— Amanhã.

O cara do carro apareceu no segundo dia, depois de três horas de estrada. O Axel tinha mandado o nome do povoado na noite anterior, porque ele tinha perguntado e porque ainda não tinha aprendido a se fazer de desentendido.

A Eva contou para ele a história do dinheiro sem dar importância.

— Para com isso. Quanto vocês precisam?

Tirou a carteira ali mesmo, no meio de uma eira. Uma carteira daquelas que não fecham direito.

— Não — disse o Axel.

Ao lado do carro, Víctor abre a carteira para oferecer dinheiro e Axel levanta a mão para recusar.

— Não é nada, cara.

— Eu sei que não é nada, cara. Não.

— Por quê?

O Axel procurou uma resposta que fizesse sentido, mas só saiu esta bobagem:

— Porque aí a gente não tá fazendo de verdade.

O do carro guardou a carteira, sem disfarçar que achava aquilo uma puta idiotice.

— Tá bom, cara. Então passem fome com dignidade, que depois isso rende uma história ótima.

Ficou para almoçar. Quando esticou a mão para pegar mais pão, viu que só restava um pedaço. Partiu em três e continuou falando.

Já com a porta do carro aberta, ele disse:

— Mostrei para um amigo meu.

A Eva levantou a cabeça.

Víctor divide o último pedaço de pão em três porções sobre o pano do almoço.

— O quê?

— A do chafariz. — Entrou no carro. — Ele quer saber quem é.

E arrancou.

A Eva ficou olhando o lugar onde o carro tinha estado. Depois começou a recolher o plástico e não abriu a boca a tarde inteira.

Na manhã seguinte pararam diante da última casa do povoado. Atrás da cerca havia quatro fileiras de tomateiros carregadíssimos e um homem capinando, na maior tranquilidade. O Axel ficou olhando para os tomates com água na boca, mas dali não passou.

— O que você tá fazendo? — perguntou a Eva.

— Nada.

— Pede.

— Quê?

— Pede para ele.

O Axel olhou para ela como se ela tivesse mandado ele pular a cerca e roubar.

Axel observa os tomates maduros atrás da cerca enquanto o homem trabalha na horta ao fundo.

— Como é que eu vou pedir?

— Com a boca.

— É que isso não se faz.

— Você nunca pediu nada na vida.

— Claro que já pedi.

— O quê?

Por mais que procurasse, só lembrava das vezes em que tinha dado: rodadas de bebida, dinheiro emprestado que nunca cobrou de volta e mudanças em que apareceu sem ninguém chamar. Das vezes em que tinha pedido alguma coisa, não lembrava de uma sequer.

— Não sei.

— Claro.

A Eva chegou perto da cerca.

— Bom dia. Escuta, tá sobrando tomate?

Eva conversa com o homem na cerca da horta enquanto ele se apoia na enxada.

— Tá sobrando cem quilos.

— O senhor dá dois para a gente?

— Dois quilos?

— Dois tomates.

O homem caiu na risada e pegou quatro de um pé.

— Levem quatro, mulher. E uns dois pimentões, que tão apodrecendo. E se vocês gostarem de abobrinha, me falem, que eu tenho um pé que tá me dando um desgosto.

Em quarenta segundos a Eva estava de volta com os tomates recolhidos na barra da camiseta. O Axel continuava plantado no mesmo lugar.

— Toma.

— Tá, mas…

— Axel. Tava sobrando.

E continuou andando. O Axel ficou três passos atrás com aquela frase.

A questão do cartucho de gás decidiu resolver sozinho. Entrou na loja do povoado seguinte com o vazio na mão e foi até o balcão, onde uma senhora de oitenta anos fazia palavras cruzadas.

— É que… — Passou a mão na nuca. — Vou contar uma coisa muito boba para a senhora.

Se explicou muito mal, pedindo desculpa antes de cada frase e dando tantas voltas que a senhora voltou às palavras cruzadas enquanto ele ainda falava.

Axel explica seu problema com o cartucho de gás vazio na mão enquanto a comerciante volta às palavras cruzadas.

— Pega um.

— Não, é que eu queria só saber se a senhora…

— Pega um, filho, que você tá tapando a minha luz.

O Axel pegou um.

— E se na volta sobrarem oito euros, você põe na caixinha da igreja — ela disse. — Ou não, que eu também não vou com a cara do padre.

E continuou fazendo as palavras cruzadas.

A Eva cantou no sábado, na feira de San Antón del Río, entre uma barraca de mantas e uma de queijos.

As pessoas paravam para ouvir, aplaudiam e iam embora sem deixar nada, porque também não tinha onde. Nem boné, nem pratinho, e os ladrões tinham levado a panela. Da barraca de mantas, o Axel contou catorze pessoas que tinham ido embora com a mão já meio enfiada no bolso. Depois olhou para as botas.

Tirou a esquerda, que era a que tinha menos cheiro. Isso ele achava.

E foi barraca por barraca, mancando, com um pé de meia, com a bota de boca para cima na mão e vermelho até as orelhas. A do queijo jogou dois euros e pediu pelo amor de Deus que ele calçasse de novo, que estava espantando a clientela. Um moleque jogou uma bala. Um senhor perguntou se a bota também estava à venda.

Axel recolhe moedas na bota diante da banca de queijos, com um pé só de meia, enquanto Eva canta.

A Eva viu ele chegando no meio do refrão e quase perdeu a nota.

Ele voltou com onze euros e vinte, uma bala e a meia preta.

— De quem foi a ideia? — perguntou a Eva.

— Do pé. Tá com cheiro de banca de queijo.

— O seu pé sempre tá com cheiro de alguma coisa.

O Axel virou a bota em cima da manta e contou as moedas duas vezes.

Tinha conseguido pedir na frente de um povoado inteiro, com um pé de meia e aquela cara de idiota, e saído vivo. No fim levaram onze dias para encontrar um caixa eletrônico que pudessem usar e não ficaram sem comer em nenhum deles.

Quando finalmente chegaram num caixa eletrônico daqueles que leem o celular, o Axel sacou duzentos euros e o dinheiro foi embora em quatro dias: um cartucho de gás, uma panela, meias de lã e uma noite numa pensão onde puderam tomar banho sem ficar economizando cada pinguinho de água.

O Axel olhou quanto restava na conta, bloqueou o celular e não disse a quantia, que onze dias a gente aguenta com uma bota na mão, e um inverno não. Nas noites de domingo, assim que a Eva dormia, escrevia para a Irene as três linhas de sempre: come, dorme, ri. Ela respondia na hora, como se tivesse passado o domingo inteiro com o celular na mão.

Uma tarde encontraram um remanso de água gelada e limpíssima e entraram para se lavar. A Eva saiu primeiro e sentou numa pedra para secar o cabelo com a manta. Ao sair da água, o Axel viu que ela olhava para alguma coisa que levava no pescoço.

Tinha visto ela fechar a mão sobre aquilo muitas vezes, com os guardas e na manhã do roubo, mas nunca tinha conseguido ver o que escondia: uma pedrinha cinza, achatada e furada, pendurada num cordão finíssimo que já estava caindo aos pedaços.

Eva observa sua pedrinha cinza furada à beira do rio, com o cabelo molhado e a manta nos ombros.

— E isso?

A Eva fechou a mão em cima.

— Nada.

— Não, sério.

— Uma pedra com um furo. Achei num rio com nove anos. Num acampamento. Um menino me disse que pedra com furo dá sorte. — Soltou e a pedra caiu em cima da camiseta. — É a única coisa que eu tenho de antes.

O Axel sentou na pedra do lado, pingando, e tirou o dele.

— Olha.

Uma rodela de galho de três centímetros, lixada dos dois lados, com os anéis da madeira marcados.

— O que é isso?

— Um galho.

— Tô vendo que é um galho.

Axel segura o pingente de madeira junto à água, com os anéis do galho visíveis.

— Fui eu que cortei. Com quinze anos, na oficina do meu pai. Ele me deu o galho e uma lixa e foi cuidar das coisas dele. Passei a tarde inteira lixando.

— E por que um galho?

— Porque ele conta os anos.

A Eva se inclinou para olhar de perto, sem encostar.

— Oito.

— Nove. Tem um bem grudado na borda.

Nenhum dos dois falou em trocar. Ficaram ali sentados com o cabelo molhado, cada um com o seu pendurado, até escurecer.

Naquela noite o Axel insistiu em fazer o fogo. Precisou de três tentativas e teve a gentileza de não fazer um discurso quando pegou, embora depois tenha passado um bom tempo mexendo a panela com uma cara de satisfação que dizia tudo.

0:00

Um segundo: confirme que você é uma pessoa