O Rapaz que Ajudava a Procurar
O rapaz que ajudava a procurar. O contínuo daquela escola fazia coisas esquisitíssimas ao cair da noite. Assim que fechava a porta e antes de se ir deitar, um dia dançava com a esfregona. No outro, punha-se a cozinhar no próprio gabinete do diretor. Ninguém sabia. Bom, um sabia.
Na caixa dos objetos perdidos, entre cachecóis, óculos e lancheiras que já ninguém vinha buscar, vivia um Magikito chamado Eugênio. Tinha uma barriga considerável de tanto estar sentado. E uma paixão quase obsessiva: filmar humanos. Filmava com uma câmera pequenina que um dia encontrou no lixo. Guardava tudo em pens que as pessoas perdem e nunca mais vão buscar. Tinha uma coleção das duas.
O professor de biologia a papar um donut inteiro dentro do carro. Os melhores jogos de basquete de rua do recreio. O professor de matemática a usar calculadora para fazer seis vezes quatro. E, acima de tudo, as palhaçadas do contínuo quando não havia viva alma na escola. Coisas boas, só filmava coisas boas. Para que havia de filmar as outras?
Até aquele ano, começou a aparecer naquele lugar: uma ficha em forma de hambúrguer, depois uma borracha que cheirava a morango. Logo a seguir, a caderneta de cromos do Rodrigo. Inteirinha. E um dia, os cinco bilhetes de cinema que a avó da Beatriz lhe tinha dado pelos anos. Estavam dentro de um envelope com o nome da Beatriz no marcador. Cinco bilhetes para partilharem com os teus melhores amigos. A Beatriz chorou na casa de banho para não a ver. E o primeiro a se oferecer para ajudar a procurar era sempre o Tomás.
O Tomás metia-se debaixo das mesas, afastava o radiador da parede, despejava o cesto dos papéis no chão e voltava a enchê-lo. Dava palmadinhas nas costas dos outros e dizia que aquilo devia ter caído pelo caminho.
O Eugênio apanhou-o sem querer e da maneira mais parva. Estava a filmar a Inês, que tinha adormecido de pé e encostada à janela. E ao fundo do plano, pequenina e desfocada, a mão do Tomás meteu-se numa mochila alheia. Rebobinou. Viu outra vez. E outra. Que um miúdo leve o que não é seu. Pronto. Pode acontecer de vez em quando. E o Eugênio via humanos há séculos e já havia visto aquilo à farta. O que lhe fez ferver o sangue foi outra coisa: o descaramento de o ver a fingir que procurava. As palmadinhas nas costas.
Arregaçou as mangas. Passou três semanas a carregar no rec. Filmou a mão na mochila do Rodrigo. Sem ninguém ver, a vigiar o corredor para um lado e para o outro como quem vai atravessar uma estrada. Filmou a caixa de bolachas dentro do cacifo. O envelope dos anos, sem abrir. E filmou as palmadinhas. Todas.
Depois fez a jogada de mestre da sua vida. No dia seguinte, havia a apresentação do trabalho sobre os vulcões. E o Tomás tinha a dele guardada na pendrive do cacifo. O Eugênio passou a noite a fazer uma montagem com tudo o que tinha filmado. Meteu-a na pendrive do Tomás, apagou o vídeo dos vulcões. Deu-lhe exatamente o mesmo nome: "vulcões ativos do planeta ponto MP4".
O Tomás foi ao quadro todo lampeiro, respirou fundo, plantou-se à frente de todos e carregou no play. E o que apareceu na parede, na máxima resolução, não foi um vulcão, nem por sombras. Foi a própria mão dele a entrar na mochila do Rodrigo. Ninguém disse nada. Nenhum risinho. Vinte e quatro miúdos em silêncio absoluto. E aquele silêncio numa escola não se ouve nunca. Veio o segundo vídeo e o terceiro. O Tomás ficou vermelho como um pimento. A professora correu a desligar o projetor, mas a essa altura já iam na caixa de bolachas. E desatou a chorar à frente de todos.
Os dias seguintes foram os piores da sua vida, e não foi por lhe gritarem. Ninguém lhe gritou. Ninguém lhe disse nada de nada, que é muito pior. Deixavam de lhe guardar lugar na fila e olhavam para o outro lado. Comia sozinho numa pontinha, à vontade de gente, até que na quinta-feira a Beatriz se sentou ao lado dele com o tabuleiro. Não lhe disse nada de bonito. Não perdoou em voz alta, nem lhe fez um discurso. Empurrou o pudim pela mesa até ficar à frente dele e disse: "Vamos lá, que eu não gosto." E pôs-se a comer.
No dia seguinte, sentaram-se os dois. No outro, a mesa inteira. Numa segunda-feira, o Tomás chegou à escola antes de todos, com a caixa de bolachas debaixo do braço. Foi deixando cada coisa em cima de cada mesa. O afia-lápis, a borracha, os cromos, o envelope com o nome, escrito a marcador, sem abrir. Não disse nem pio, e ninguém o obrigou a dizer nada.
Desde então, quem trata da caixa dos objetos perdidos é ele. Sabe muito bem de quem é cada cachecol. Mete-se debaixo das mesas, afasta o radiador da parede, despeja os papéis do cesto no chão e volta a enchê-lo, só que agora, quando ajuda a procurar, encontra.
O Eugênio apagou o vídeo dos roubos e ficou muito descansado, mas gostou tanto daquilo das apresentações que agora, de vez em quando, cola os seus clipes preferidos nos trabalhos dos alunos. Dizem que desde então, o contínuo ficou famoso pelas palhaçadas que faz de noite e todos continuam convencidos de que foi ele que fez a apresentação naquele dia.