O Fato sem Costuras
O fato sem costuras. O Duarte tinha o único fato completamente liso de toda a floresta, sem uma única costura. Verde maçã impecável, perfeito e bem passadinho a ferro.
Os outros Magikitos pareciam vestidos por uma batedeira de pratos: felizes da vida, retalhos colados a retalhos, remendados em cima de remendos, formas sem nexo e combinações de cores esquisitíssimas. Ele não, ele andava sempre feito um brinco e cuidava daquele fato como ouro em pó. Quando a malta se atirava pelo escorrega de lama — chape, chape, chape —, ele ficava a ver lá de cima. Quando havia guerra de amoras, escondia-se atrás de um cogumelo. Quando os pinheiros largavam resina, nem o gorro punha de fora.
— Duarte, desce!
— Já vou!
E não descia nunca.
Uma manhã foi ver a poça do costume e havia qualquer coisa que não batia certo. Limpo estava, isso estava: nenhuma nódoa, nenhum buraquinho. Mas o verde já não era verde, era um verde apagado, sem vida. Lavou com sabão de casca de sabugueiro. Estendeu ao sol dois dias inteiros. Esfregou com hortelã fresca. Nada. Cada manhã, um bocadinho mais cinzento.
Então, plantou-se em casa do Serafim, o Magikito mais velho da floresta, que vivia debaixo da raiz gorda do castanheiro. O Serafim era basicamente uma trapalhada de pedaços, trazia tantos remendos em cima que já ninguém se lembrava de que cor tinha sido o fato dele. E o mistério era mesmo esse, porque ainda assim era o mais rico com as cores mais vivas de toda a floresta.
Encontrou-o à porta, a apanhar sol de olhos fechados, a trautear uma melodia alegre.
— Tu és o do fato perfeito — disse sem levantar os olhos.
— Era — disse o Duarte, e mostrou-lhe o cinzento.
O Serafim abriu os olhos e olhou-o de alto a baixo, devagarinho.
— Quantos remendos trazes?
— Nenhum, está inteiro.
— Pois aí tens as respostas.
E não, não tinha. O Duarte não percebeu nada.
O Serafim chegou-se para o lado no banquinho e pôs-se a mostrar o fato, remendo a remendo, como quem mostra a casa.
— Vê este amarelo? É o bocado que se rasgou das calças da Luzinha, que brilha com tanta força que espanta os mochos.
— E este, com as bolinhas, é das cuecas do Batista, que me tirou do rio a puxar-me pelos cabelos, porque a nadar não sou lá grande coisa. E estes triangulozinhos cor de laranja — tocou-lhe com dois dos seus dedos gordinhos —, este é de uma meia que encontrei debaixo do armário. É o mais velho de todos, mas aquece que se farta.
Duarte olhou bem: entre remendo e remendo, quase não estava o tecido original. Só um bocadinho grená no ombro, pequeno como uma unha.
— E o teu tecido? O teu? — perguntou o Duarte.
O Serafim apontou para o ombro:
— Aqui ainda há um bocadinho.
— E o resto? — perguntou o Duarte.
— Pois os bocados que se foram rasgando, fui-os dando a quem estava comigo neste momento.
E contou-lhe um segredo:
— Para o teu fato ganhar vida, tem de o encher de vida. Tão simples como isso. Quando estiveres a divertir-te sem pensar, vais ver, os bocados caem sozinhos. Quando isso te acontecer, dás um bocadinho de tecido ao primeiro que apanhares. Zás, zás, ele dá-te um do dele. O teu remendo tapa o buraco dele, o dele tapa o teu. Eu trago um buraco por cada amigo — disse o Serafim —, e um amigo em cima de cada buraco. Por isso é que eu nunca tenho frio.
O Duarte olhou para o seu fato liso e perfeito. E de repente viu-o pelo que era: um fato solitário, sem vida. Desatou a chorar.
O Serafim olhou para ele com ternura. O miúdo tinha percebido a mensagem. Levou a mão ao ombro, arrancou de um puxão o último bocado grená que lhe restava e pô-lo na mão.
— Mas isto é o último que tens — disse o Duarte, entre soluços.
— Então ainda bem que vieste antes de ele acabar — disse o Serafim com um sorriso, e deu-lhe uma palmada no peito.
Na manhã seguinte, à volta do grená, o verde tinha voltado, mais verde do que nunca. O Duarte saiu disparado para o escorrega de lama. — Abram alas! — gritou, e atirou-se de cabeça, chape! Até as mãos bateram palmas.
Nessa noite, voltou para casa feito num oito, lama até às orelhas, um quadradinho a menos na manga, outro a menos no joelho e, em cima de cada buraco, o remendo novinho em folha. Deitou-se mortinho por se levantar outra vez para ir dar cabo do fato com novas aventuras.