A reunião mais aborrecida do mundo
Contado por Gabriela
A reunião mais aborrecida do mundo. Diapositivo 87 de 140.
Na sala de reuniões do quarto andar, doze pessoas estavam há uma hora e meia a morrer por dentro, enquanto o chefe, um tal de Ramires, via gráficos em voz alta, um atrás do outro, com a mesma emoção com que se lê a lista das compras.
“E aqui vemos, como podem observar, uma ligeira tendência de subida no terceiro trimestre que, se compararmos com o gráfico anterior, ninguém observava nada.” A Marta desenhava espirais no caderno. O Pedro tinha encontrado um ponto fixo na parede e não o largava por nada. Lá do fundo, tinha adormecido de olhos abertos — uma arte que só se domina nas reuniões com projetor. O estagiário olhava para o relógio de 11 em 11 segundos, convencido de que estava avariado, porque era impossível o tempo andar tão devagar. O tédio era tão denso que quase se podia mastigar.
E isso, para certo inquilino da sala, era intolerável. Vivia no projetor e chamava-se Garatujo, o Magikito da criatividade. Tinha por gorro um borrão de tinta que lhe escorria por uma orelha. Andava há meses ali dentro, e alimentava-se das ideias faiscantes das pessoas. O problema é que, naquela sala, ultimamente, não faiscava uma. Só gráficos. O Garatujo morria de fome e de nojo.
Até que, no diapositivo 87, o próprio 87 disse basta. Deu um toquezinho no projetor. A barra mais alta do gráfico, a tal da tendência de subida, entortou-se. Devagarinho, nasceu-lhe um olho, depois outro. E, no fim, um nariz de palhaço, vermelho e redondo, no meio da apresentação trimestral.
A Marta levantou os olhos das espirais, pestanejou, olhou para o Pedro. O Pedro já estava a ver. De boca aberta, Ramires continuava na dele, de costas para o ecrã. O que nos leva, inevitavelmente, ao diapositivo 88. Mas o 88 já não era um gráfico circular: era um desenho bastante decente do Ramires com orelhas de burro. Alguém deixou escapar um risinho, abafou logo, aterrado — mas já se sabe que um riso, numa sala em silêncio, é a coisa mais contagiosa do mundo. Mais do que um bocejo, mais do que uma gripe.
Então, a máquina de café do canto, sem ninguém lhe tocar, desatou a borbulhar uma musiquinha de carrossel. O estagiário explodiu primeiro, uma gargalhada que estava presa há uma hora e meia. Atrás, a Marta; atrás, a fila inteira. O que dormia de olhos abertos acordou com um susto, viu o chefe burro no ecrã e juntou-se sem saber de que se ria. A esferográfica do Pedro começou a apitar sozinha, uma nota aguda e absurda. E assim, então, foi o delírio.
O Ramires virou-se, por fim, para o ecrã. Viu a própria cara com orelhas de burro. Viu os dois empregados a chorar de riso, agarrados à barriga, vermelhos como tomates. E o Ramires, o homem mais sério do quarto andar, abriu a boca para ralhar. Mas saiu uma gargalhada — a maior de todas. Acontece que o coitado estava há uma hora e meia tão morto de tédio como os outros; só que ele não podia abandonar o barco. Mas o nariz de palhaço deu-lhe permissão.
A reunião foi levantada vinte minutos mais cedo, sem terminar. Os diapositivos do 89 ao 140 não os viu ninguém, e o mundo continuou a girar exatamente na mesma. Dentro do projetor, o Garatujo tinha ficado seco. O borrão de tinta do gorro, antes preto e brilhante, estava agora cinzento e gretado, e as patinhas tremiam-lhe. Rebentar a reunião mais aborrecida do mundo e, de caminho, doze pessoas ao mesmo tempo, não sai de graça. Nunca sai de graça. Mas, pela grelha, entrava o som das gargalhadas, que ainda não se apagavam de todo. E o Garatujo, aquilo soube-lhe a banquete. Aninhou-se e juntou-se à lâmpada quentinha. Amanhã, diapositivo oitenta e nove, bocejou. Mas hoje não — e ferrou no sono.