Eu É Que Destapo
Eu é que destapo.
O Bonifácio estava no tabuleiro debaixo do carrinho das sobremesas, a dar voltas a uma colherada de arroz doce. Uma delícia! E ele destas coisas entendia, que tinha passado a vida metendo-se nas melhores cozinhas do mundo. Chegava num dia qualquer, ficava o tempo que fosse preciso até arrancar aquela casa a receita que ela fazia bem. E assim que a sabia de cor, pegava nas suas coisas e ia procurar outra. E já ia em 64 receitas gourmet este ano. E não se aborrecia nem um bocadinho.
Ele observava tudo e todos. O miúdo que comia pudim do pai, enquanto o pai contava a mesma história de sempre. A Betinha que não queria tomate na salada de tomate. O casal que discutia pela última fatia de bolo que tinha um pedido para partilhar. Para o Bonifácio aquilo era cem vezes melhor do que o cinema.
Naquela quinta-feira, numa mesa redonda e elegante, estavam cinco senhores de fato. Um deles falava muito mais alto do que os outros. Tinha o telemóvel em cima da mesa, virado para cima e voltado para os outros, para que se visse bem clarinho.
— Vejam-me isto!
Os outros quatro inclinaram-se.
— Foi isto que a minha carteira de investimentos fez esta semana, em cinco dias.
— Opa! Isso está muito bom.
— Eu, se quiser, já não preciso de te atrapalhar. O estupor trabalha por mim, enquanto vocês dormem, hã? Eu faço massa enquanto vocês dormem. Ha, ha, ha.
Levantou o braço para chamar o relógio enorme que trazia por fora do punho, abanou o sino no pulso.
— Oh, linda, esta salada quero-a sem vinagre.
A Sónia, que às quintas fazia a sala sozinha, levou a salada e voltou com outra.
— Oh, linda, melhor com vinagre, mas muito pouco.
Levou outra vez, voltou outra vez. Seis vezes levantou o braço em vinte minutos.
— Por favor, compreenda que tenho mais mesas, senhor.
— Vamos lá entendermos. Eu pago e tu trazes, está claro?
Chegou um naco de carne. Olhou para ele três segundos e afastou com um canto da mão.
— Mal passada.
— O senhor pediu mal passada?
— Agora eu quero-a de outra maneira. Vês como é fácil?
Enquanto a empregada ia e vinha, ele gabava-se do poder do dinheiro.
— É que quando se tem massa, faz-se o que dá na real gana — dizia aos colegas.
Quando a carne voltou, empurrou o prato pela toalha na direção dela.
— Corta-mo, que hoje estou cansado.
A Sónia ficou quieta, com o prato nas mãos.
— Estás a ver? Hoje és minha escrava e amanhã já se vê.
E riu-se sozinho durante uns segundos. Depois os outros riram-se também, por obrigação. A Sónia cortou-lhe a carne.
De sobremesa, não pediu o que estava na carta.
— O mousse de chocolate, mas sem açúcar, sem lactose, com um frasco de sal à parte e traz-me tapado.
— Tapada, senhor?
— Sim, com essa cloche metálica, que é que há muita gente a respirar e a mim não me respirar ninguém por cima do prato. E não destapas tu, é eu que destapo.
Na cozinha, puseram-lhe a cloche e deixaram o prato no passe, pronto a sair.
O Bonifácio saiu do esconderijo furioso. Meteu-se na cozinha, levantou a borda da cloche e enfiou-se lá dentro. Ao lado do chocolate, que por sinal cheirava de maravilha, fez a viagem no tabuleiro da Sónia, todo lampeiro, como quem vai de elevador. O prato aterrou-se na mesa redonda.
— Eu é que destapo, ó linda.
Levantou a cloche sem olhar para o prato, porque estava outra vez a contar a história dos investimentos e os fatos tinham de estar a olhar para ele.
Ninguém viu debaixo da cloche sair um Magikito a toda velocidade. O Bonifácio atravessou a toalha em três passadas, abraçou o seu telemóvel, que para ele era do tamanho de uma porta, e atirou-se com ele pela borda. Plaf! No chão, sobre a alcatifa, escorregou para baixo da mesa e pôs as mãos à obra.
Lá em cima, armou-se um alvoroço.
— O meu telemóvel! Onde está o meu telemóvel?
— Está aqui.
— Oh, empregada! Talvez o tenhas guardado no bolso.
— Como é que havia de guardar se o tinha aqui à frente?
Revistou-se todos os bolsos do casaco e obrigou os outros a esvaziarem os deles, a empregada incluída. O que o Bonifácio fez naqueles dois minutos não sabe ninguém.
Quando finalmente o encontraram, o telemóvel estava no chão, ao lado da cadeira do senhor.
— Está aqui — disse um dos acompanhantes.
Pegou nele furioso e voltou a pô-lo na mesa, ao lado do copo de vinho, desta vez virado para baixo e bloqueado.
Continuaram a falar de quantas casas tinha cada um e da partida de golfe do dia seguinte. A conta chegou às dez e um quarto. Tirou um porta-cartões de alumínio, abriu com um clique e pescou um cartão com dois dedos. Passou no terminal. Recusado.
— Deve estar avariado esse aparelho — voltou a metê-lo.
Recusado. Tirou outro, um preto, e esse mostrou antes de o meter para que todos vissem. Recusado.
— Caraças, vamos lá ver o que se passa aqui.
Pegou no telemóvel, abriu a aplicação do banco e ficou de boca aberta. Cinquenta cêntimos. Era esse o saldo total. Onde havia milhões, havia agora cinquenta míseros cêntimos. Ficou vermelho, vermelhíssimo. Um dos colegas tossicou.
— Tudo bem, Nuno?
O Nuno não abriu o bico. A Sónia esperava de pé com o terminal na mão.
— Quando quiser, senhor.
O senhor continuava calado, a olhar para o ecrãzinho do telemóvel. No fim, pagaram os colegas e foram-se todos embora em silêncio.
Naquela noite, a Sónia fez horas extraordinárias para ajudar na limpeza. Fechou o sítio já passava bem da meia-noite e apanhou o autocarro para casa. Foi nesse momento que lhe entrou um aviso no telemóvel. Contou zeros três vezes e passou-lhe a parada. A Sónia tinha passado de não ter quase nada para pagar a renda para ter uma conta com mais zeros do que já tinha visto na vida. Poucos meses depois, abriu o seu próprio restaurante, Doze Mesas, e só serve gente que vai sem casaco e pede coisas com alegria. Quem lá vai diz que é de comer e chorar por mais. Tanto que desde abril o Bonifácio não sai de lá. É o sítio mais alegre que viu em toda a vida.