Fadas na história (dos celtas ao Studio Ghibli)

As fadas não são figurinhas rosa com purpurina. São forças da natureza. E é hora de alguém dizer isso.

Porque em algum momento do caminho, alguém decidiu que fadas eram criaturas minúsculas, inofensivas e decorativas. Que a função delas era flutuar com asinhas de borboleta, soltar pó brilhante e cantar músicas doces. E isso, com todo o carinho do mundo, é uma falta de respeito monumental com milhares de anos de tradição.

As fadas originais davam medo. Inspiravam respeito. Podiam destruir a sua vida ou salvá-la, dependendo do humor delas. Eram poderosas, imprevisíveis e absolutamente fascinantes.

Hoje vamos percorrer a história real delas. Dos Sidhe celtas até os Kodama da Ghibli. E você vai pirar.

Os Sidhe: as fadas que governavam a Irlanda

Vamos ao início. Ao início de verdade.

Na mitologia celta irlandesa, os Tuatha Dé Danann (a tribo da deusa Dana) eram uma raça de seres sobrenaturais que governaram a Irlanda antes da chegada dos humanos. Eram guerreiros, artistas, magos. Dominavam a natureza, o tempo e a morte.

Quando os humanos (os Milésios) chegaram à Irlanda, os Tuatha Dé Danann não foram destruídos. Se retiraram. Foram viver debaixo das colinas, nos sídhe (montículos, túmulos). E dali, do mundo subterrâneo, continuaram existindo. Invisíveis mas presentes. Poderosos mas ocultos.

Esses são os Sidhe (pronuncia-se "chi"). As fadas originais. E não eram pequenininhas com asinhas. Eram seres do tamanho de humanos (ou maiores), imortais, belos e perigosos. Podiam conceder seus desejos ou te condenar a vagar pelo mundo por cem anos. Podiam se apaixonar por você ou roubar a sua alma. Não tinha meio-termo.

Os irlandeses não usavam a palavra "fada" à toa. Aliás, preferiam chamá-las de "a gente boa" (the good people) ou "os vizinhos" (the neighbors) por medo de ofendê-las. Nomeá-las diretamente era arriscado. Porque os Sidhe escutavam. Sempre escutavam.

As fadas no folclore medieval: nem boas nem más

Quando o cristianismo chegou na Europa, as fadas não desapareceram. Se transformaram. A Igreja tentou classificá-las: são demônios? São anjos caídos? São almas penadas? Nunca chegaram a um acordo.

O que fizeram foi incorporá-las ao imaginário popular. Os contos medievais estão cheios de fadas, mas não as da Disney. As fadas medievais são ambíguas, complexas e moralmente cinzentas.

Morgana (do ciclo arturiano) é uma fada. É curandeira, é feiticeira, é antagonista, é salvadora. Tudo ao mesmo tempo. Melusina, a fada que se transforma em serpente aos sábados, é esposa devota e criatura selvagem simultaneamente. As fadas dos "lais" de Marie de France (século XII) seduzem cavaleiros, os levam pro mundo delas e os devolvem loucos de amor.

No folclore medieval europeu, encontrar uma fada era uma experiência transformadora. Podia mudar a sua vida pra melhor ou pra pior. As fadas eram agentes de mudança. Te arrancavam da sua vida cotidiana e te lançavam numa aventura da qual você voltava diferente (se voltasse).

Os contos que hoje chamamos de "contos de fadas" originalmente não eram pra crianças. Eram histórias pra adultos sobre encontros com o desconhecido. Sobre atravessar umbrais. Sobre transformação pessoal. Só séculos depois foram adoçados pra ficarem apropriados pra quartos infantis.

Shakespeare e as fadas isabelinas: começa o encolhimento

E então chegou Shakespeare. E com ele, a primeira grande mudança na percepção das fadas.

Em "Sonho de uma Noite de Verão" (1595), Shakespeare apresenta fadas pequenas, travessas e divertidas. Oberon e Titânia são majestosos, sim, mas os servos deles (Ervilha-de-Cheiro, Teia-de-Aranha, Mariposa) são criaturas minúsculas e cômicas. Puck, o mais famoso, é um pregador de peças que causa caos por diversão.

Shakespeare não inventou as fadas pequenas. Recolheu uma tradição popular que já estava crescendo na Inglaterra. Mas ao colocá-la em cena com tanto sucesso, fixou a imagem. A partir de Shakespeare, as fadas começaram a encolher. Literalmente.

Antes dele, as fadas tinham o tamanho de humanos. Depois dele, cada geração as fez menores. E cada vez que encolhiam, perdiam poder, perdiam perigo, perdiam nuances. As fadas iam a caminho de virar estatuetas de jardim.

O curioso é que Shakespeare sabia exatamente o que estava fazendo. Se você ler "Sonho de uma Noite de Verão" com atenção, as fadas continuam sendo poderosas e manipuladoras. Puck é encantador, mas também apavorante. Oberon usa a magia pra controlar Titânia contra a vontade dela. Aqui não tem bobagem: é uma história sobre poder e desejo disfarçada de comédia leve.

Mas as pessoas ficaram com as fadinhas pequenas e engraçadas. É assim que funciona a cultura popular.

A loucura vitoriana: fadas, fotografias e jardins

Se Shakespeare encolheu as fadas, os vitorianos as transformaram em figuras decorativas. E quase acabaram com elas.

Na Inglaterra do século XIX estourou uma autêntica febre por fadas. Pintavam, esculpiam, desenhavam em livros, usavam em decoração. Os quadros de Richard Dadd, Arthur Rackham e Cicely Mary Barker apresentavam fadas minúsculas, delicadas, vivendo entre flores. Bonitas. Inofensivas. Totalmente domesticadas.

As fadas vitorianas eram a natureza controlada. A magia tornada segura. O mistério transformado em enfeite de sala. Reflexo perfeito de uma sociedade que estava industrializando tudo e precisava acreditar que a natureza era algo bonito e administrável, não algo selvagem e perigoso.

O ponto alto da loucura foi o caso das Fadas de Cottingley (1917). Duas meninas inglesas, Elsie Wright e Frances Griffiths, fotografaram "fadas" num jardim de Yorkshire. As fotos eram falsas (recortes de papelão), mas por anos meio mundo acreditou nelas. Incluindo Arthur Conan Doyle, o criador de Sherlock Holmes, que dedicou um livro inteiro pra defender a autenticidade delas.

O fato do criador do detetive mais racional da história ter acreditado em fadas de papelão diz muito sobre quão profunda era a necessidade vitoriana de acreditar na magia. Tinham racionalizado tanto o mundo que precisavam desesperadamente que algo fosse inexplicável.

Tolkien vs as fadas de jardim: a rebelião

J.R.R. Tolkien odiava o que os vitorianos tinham feito com as fadas. Deixou isso bem claro no ensaio "Sobre Histórias de Fadas" (1947), um dos textos mais importantes já escritos sobre o tema.

Tolkien argumentava que as "fadas" (ou os Elfos, como ele preferia chamar) não eram criaturas minúsculas e decorativas. Eram seres majestosos, imortais, sábios e perigosos. Exatamente como os Sidhe celtas originais.

Os Elfos dele (Galadriel, Elrond, Legolas) recuperaram a grandeza perdida. Eram altos, belos, poderosos e ligeiramente apavorantes na perfeição deles. Tolkien devolveu às fadas a dignidade antiga. Tirou elas do jardim e colocou de volta nas florestas profundas, onde sempre tinham pertencido.

Mas Tolkien também reconhecia algo fundamental: os contos de fadas não são só entretenimento. São um jeito de entender o mundo. Os contos de fadas nos ensinam sobre o bem, o mal, o sacrifício, a transformação. São filosofia contada como história. E tratá-los como "coisa de criança" é tão absurdo quanto dizer que música é só pra bebês porque você canta cantigas de ninar pra eles.

Disney: a armadilha rosa

E então chegou a Disney. E, bom, já sabemos o que aconteceu.

Sininho. A Sininho do Peter Pan. Minúscula, loira, vestida de verde, com asinhas de purpurina. A imagem que definiu "fada" pra gerações inteiras. E tudo o que as fadas não eram.

Não é que a Disney seja ruim. Criou coisas lindas. Mas a versão deles de fadas eliminou tudo que as tornava fascinantes: o perigo, a ambiguidade, o poder, o mistério. Transformou elas em mascotes fofas. Em merchandising.

Depois da Sininho, cada filme, cada série e cada marca de brinquedos reforçou o mesmo molde: fada = mulher minúscula com asas, rosa ou roxa, inofensiva, decorativa. As fadas passaram de forças da natureza a adesivos pra pastas escolares.

E as gerações cresceram achando que isso eram as fadas. Que o folclore se resumia a purpurina e músicas doces. Que milhares de anos de tradição oral se resumiam a uma lourinha com asinhas.

Com carinho, mas não. Isso não são as fadas. Nem de longe.

Studio Ghibli: as fadas voltam pra natureza

E quando parecia que as fadas estavam condenadas a serem figuras de plástico pra sempre, chegou Hayao Miyazaki. Do Japão. E mudou tudo.

Os espíritos da natureza do Studio Ghibli não se chamam "fadas". Se chamam Kodama, espíritos da floresta, criaturas da água, deuses do vento. Mas são exatamente o que as fadas europeias foram por milhares de anos: a natureza viva, consciente e com vontade própria.

Em "Princesa Mononoke" (1997), a floresta está cheia de Kodama, pequenos espíritos que habitam as árvores. São silenciosos, misteriosos, frágeis. Quando as árvores morrem, os Kodama morrem. E quando a floresta é destruída, todos desaparecem.

Em "Meu Vizinho Totoro" (1988), o Totoro é o espírito da floresta. Enorme, peludo, poderoso e bondoso. Nem rastro de rosa nem de purpurina. Totoro é pura força da natureza, dessas que protegem a floresta e quem a respeita. Basicamente, o que os Sidhe celtas eram antes da Disney colocar asinhas neles.

Em "A Viagem de Chihiro" (2001), os espíritos são caprichosos, ambíguos e moralmente complexos. Exatamente como as fadas medievais. O mundo mágico não é bom nem mau. É outro. Com as suas próprias regras, os seus próprios perigos e as suas próprias recompensas.

Miyazaki fez algo que ninguém tinha conseguido em décadas: devolver às fadas a conexão delas com a natureza. As criaturas dele não vivem em jardins nem em caixas de brinquedo. Vivem em florestas milenares, em rios profundos, em montanhas que ninguém pisou. E não estão ali pra decorar. Estão ali porque aquele é o lar delas.

É exatamente a mesma ideia que os celtas tinham há três mil anos (e os duendes domésticos europeus compartilham). Os japoneses chamam de animismo. Os celtas chamavam de o outro mundo. Nós chamamos de magia.

As Fadas Magikitas: volta às raízes

E o que as Fadas dos Magikitos têm a ver com tudo isso? Tudo.

As Fadas Magikitas não são figurinhas rosa. Não têm asinhas de plástico nem purpurina. São feitas de lã de ovelha natural, com cores orgânicas e texturas que lembram musgo, lã, terra. Parecem tiradas de uma floresta celta, não de uma loja de brinquedos.

A energia delas é contemplativa, serena, profunda. Como a dos Sidhe originais. Não são barulhentas nem chamativas. São presença. Companhia silenciosa que te acompanha sem exigir nada. Exatamente como os espíritos da natureza de sempre.

Quando a Carmen cria uma Fada Magikita, não está fazendo um "produto de fantasia". Está continuando uma tradição que começou com os Tuatha Dé Danann, passou pelas florestas medievais, sobreviveu a Shakespeare, resistiu aos vitorianos e encontrou eco nas florestas do Miyazaki.

O que perdemos (e o que podemos recuperar)

Em algum momento, decidimos que as fadas eram mentira. Que o folclore era superstição. Que acreditar em algo que você não consegue medir era coisa de ingênuo.

E nesse processo, perdemos algo grande. Não a crença literal em seres mágicos (ninguém está pedindo isso). Perdemos a atitude. A capacidade de olhar pra uma floresta e sentir que ela está viva. De escutar um rio e pensar que ele tem algo pra te dizer. De entrar numa casa e notar que tem uma presença quente que te acolhe.

Os celtas tinham isso. Os japoneses conservam isso. E nós podemos recuperar. Não precisa acreditar literalmente em fadas pra viver com a sensibilidade de quem acredita nelas.

É isso que tentamos com os Magikitos. Não vendemos "crenças". Vendemos presença. Companhia. Uma desculpa pra olhar o mundo com um pouco mais de espanto.

As fadas vêm há três mil anos tentando nos dizer a mesma coisa: a natureza é sagrada, o lar é sagrado e a magia existe no cotidiano. Não precisa de purpurina. Só precisa prestar atenção.

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